Saudações nerds!Sim, sim... após a abdução, um breve retorno e uma nova ausência, Mestre Chang está de volta. Prometi ao Marlo que hoje eu ia postar, mas não consegui finalizar o texto. Como promessa é dívida, deixo para os amigos uma foto da Jessica Alba em trajes sumários. (As amigas que me desculpem, mas recentemente o Marlo já publicou fotos sensuais para o público feminino).
Isso foi só pra não dizer que não postei nada hoje, viu Marlão? Hehehe...E em seguida eu volto. E já vou começar chutando o balde. Aguardem.
P.S.: Clique na imagem para ver... com maior resolução. Os detalhes fazem toda a diferença.
Em alta desde o excelente filme do ano passado (cuja continuação, prevista para ano que vem, já geral alta expectativa), o Homem de Ferro tem ganhado contínuo destaque entre os lançamentos da Marvel e, por consequência, da Panini Brasil.
Este encadernado compila as seis primeiras edições de Iron Man, lançadas no Brasil em forma de minissérie, em 2006. A trama de Warren Ellis atualiza o herói para o século 21, não apenas em seu contexto, mas também em sua relação com o equipamento que lhe confere poder. Pontuada por citações a pessoas e eventos científicos cruciais da história recente, Ellis faz de forma divertida e inteligente o que sabe melhor: criar ciência fantástica com um pé na realidade (ou seria ciência real com um pé na fantasia?).
Extremis é o nome dado a uma nova tentativa de soro de supersoldado, experimento cujo único sucesso, até então, era o Capitão América. Só que ao invés de simplesmente amplificar força e reflexos, o Extremis promove uma completa remodelação interna do corpo humano, a partir do centro cerebral de regeneração. O soro é roubado e vendido a terroristas, o que provoca uma tragédia.
Ao reconhecer os efeitos de sua criação, a cientista Maya Hansen apela a Tony Stark, esperando que seus contatos com os Vingadores e a SHIELD ajudem a minimizar os problemas. O que Tony não esperava é que a cobaia do Extremis se revelasse um desafio superior a toda sua tecnologia, o que quase lhe custa a vida e o obriga a tomar uma decisão que pode resultar no upgrade supremo de seu armamento... ou na sua morte.
O trabalho admirável de Adi Granov na concepção da nova armadura do Homem de Ferro rendeu-lhe convite como consultor de design no filme, mas seus méritos não estão resumidos a ela. Com um estilo que faz lembrar John Cassaday (Surpreendentes X-Men), Granov é econômico nos cenários, mas desenhas celulares, carros e o próprio Tony Stark de modo verossímil, ao invés de hi-tech exacerbado ou uma montanha de músculos, incompatível com o semi-sedentarismo do personagem.
Extremis, com sua agilidade e respeito à inteligência do leitor, é uma ótima adição à coleção de qualquer fã de bons quadrinhos. Merece a Estante Encantada!
É triste, mas é um fato: é raro a gente dar dicas de livros aqui no Catapop. Confesso que isso acontece porque eu realmente não leio tantos livros quanto deveria, gastando (e, às vezes, desperdiçando) muito do meu tempo com DC e Marvel. Por isso, mesmo com a torpe desculpa de que tenha sido incluído em um pedido à FNAC apenas para completar o valor mínimo para frete grátis, Leite Derramado acabou se revelando uma prazerosa surpresa.
Esquecido no leito de um hospital qualquer do Rio de Janeiro, um homem conta sua história e de sua família, ao longo de pouco mais de cem anos, acompanhando as transformações físicas e sociais da cidade e alguns momentos importantes da história do Brasil. Seus relatos são desconexos, cheios de idas e voltas no tempo, e jogam para o leitor a tarefa de discernir o que é verdade do que é delírio senil na sua jornada dos nobres palacetes dos primeiros anos do século XX à virtual indigência dos dias atuais, tudo sempre pontuado pela figura de uma mulher jovem e enigmática, chamada Matilde, único amor da sua longa vida.
A linguagem rica e direta que faz a fama da obra musical de Chico Buarque se faz presente neste livro de leitura agradável e altamente recomendável. Confesso que agora fiquei curioso para ler Estorvo, Benjamin e Budapeste, seus livros anteriores, dos quais me esquivei pela cisma de que Chico estivesse apenas pleiteando, na literatura, a adulação que lhe é dedicada no campo da música, onde "gênio" é o adjetivo mais modesto que seus fãs lhe aplicam. Não me restam dúvidas, porém, de que ele domina o ofício de escrever.
HQ: Liga da Justiça por Grant Morrison Vol. 1
Na segunda metade da década de 90, passado o boom da novidade que foi a Liga da Justiça Internacional, voltada para o humor, a principal equipe da DC padecia com sagas fuleiras e consequentes baixas vendas. Para dar novo gás à série, foi chamado um certo escocês, de prestígio até então inabalado, que já havia legado um punhado de obras-primas à editora, como a reformulação do Homem-Animal e a graphic novel Asilo Arkham.
O primeiro grande acerto de Grant Morrison foi perceber o óbvio ululante: para ser realmente a maior equipe de heróis da DC, a Liga da Justiça teria que contar com seus maiores heróis. Isso significaria ter em suas fileiras os assim chamados Sete Magníficos: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Aquaman, Flash e Caçador de Marte. Outros viriam, claro, mas era importante iniciar os trabalhos com um dream team super-heroico. O segundo acerto foi torná-los ligeiramente arrogantes: ora, bolas, se você e seus colegas têm o poder de chutar bundas e partir o mundo ao meio, para que falsa modéstia? A LJA de Morrison era o ápice da concentração de poder e sabia perfeitamente disso. O terceiro foi deixar de lado os vilões mais manjados e investir na criação de novos e perigosos tipos (por exemplo, os marcianos brancos e os anjos caídos) e no enfodecimento de figuras patéticas do passado, como o Chave.
Os desafios propostos por Morrison à LJA eram sempre grandiosos, verdadeiros acaba-mundos que não poderiam ser resolvidos por nenhum dos heróis isoladamente. Entretanto, desde cedo notamos uma predileção do escritor pelo Batman: em meio a tantas figuras com poderes mitológicos, diversas vezes cabia ao único ser humano sem poderes da equipe ("o homem mais perigoso do mundo", segundo Superman) a missão de tirá-la das piores enrascadas. Morrison foi ainda o único escritor que aproveitou, de maneira digna e grandiosa, o curto período em que o Superman ostentou poderes elétricos.
Lamenta-se, apenas, a escolha de um desenhista de segundo escalão, Howard Porter, para ilustrar este momento singular da equipe. Imagino que uma pressão da DC por regularidade nas entregas tenha sido o único motivo a afastar Morrison de seu habitual colaborador, Frank Quitely (um lerdo, porém, um criador de sequências inesquecíveis). Por sorte, tivemos um gostinho da parceria na saga Terra 2 - que, esperamos, constará de algum novo volume por vir.
Infelizmente, a Panini tem uma política de encadernação para lá de obscura, e a gente não tem como saber que coleções podem um dia ganhar o sonhado Volume 2. Mesmo assim, essa coleção reúne aventuras de primeira e que só haviam sido publicadas aqui em formatinho. O luxo da capa dura era dispensável, mas a edição da Panini peca mesmo é por não ter extras, exceto por uma galeria de capas. Era pra encher o volume com entrevistas e textos de Morrison sobre seus conceitos para a equipe. Apesar das falhas, é um deleite reler este material.
HQ: Universo DC: Começa a Crise Final
A DC perdeu tempo e dinheiro (deles e da gente) durante meses a fio, com a Contagem Regressiva e as séries que, aqui, compuseram o Prelúdio Para a Crise Final. Nesta edição, que prepara o terreno para mais um mega-evento de nível cósmico, nada daquilo é sequer mencionado - nem mesmo o aparentemente mais relevante deles, a morte dos Novos Deuses. Não se fala em Donna Troy, Jason Todd ou Kyle Rayner. Não se fala em Monitores, Monarca ou Batedora. Enfim, foi um jeito mais ou menos educado que Grant Morrison e Geoff Johns acharam para dizer: "esqueçam aquela baboseira, o que realmente importa para a Crise Final é o que está acontecendo em Batman, Superman, Mulher-Maravilha e Lanterna Verde!".
Mais do que simplesmente ajeitar o pano de fundo para a Crise Final, este especial cria expectativa para sagas que começam a desenrolar-se desde já e se estendem até o ano que vem: Descanse em Paz (Batman), A Legião dos Três Mundos (Superman) e A Noite Mais Densa (Lanterna Verde). São poucas páginas, desenhadas por prata-da-casa, como Ivan Reis, George Pérez, Ed Benes e Aaron Lopresti.
O grande "tchan" da edição é a maneira sutil como se vai revelando a identidade do seu narrador - e a última página provoca arrepios na espinha, quando a gente saca quem é! Já vimos esse filme, é verdade - só que nunca antes com este personagem. Ou muito me engano, ou esse negócio vai sair bonito: Grant Morrison comanda o evento principal, enquanto Geoff Johns, Greg Rucka, Peter J. Tomasi e Brad Meltzer seguram as pontas nos acontecimentos paralelos. Que venha a (última?) Crise!
DVD: Roma - Primeira Temporada
Uma ótima dica (meio tardia, é verdade) de DVD é esta excelente série da HBO, que recria de modo impressionante o período de ascensão e queda do imperador Júlio César. Contando com um excelente elenco de semidesconhecidos, Roma é um espetáculo memorável de história, política, erotismo e violência exacerbada, com sequências que chegam a chocar. Mesmo assim, tem alguns bons momentos de humor - e não há nada mais engraçado do que comparar a famosa e suntuosa Cleópatra de Elizabeth Taylor com a vagabundazinha sem glamour algum que ela se revela na série. Vale um aviso: tire as crianças da sala. A nudez frontal, inclusive masculina e em "posição de batalha", é constante.
DVD: As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian
Depois de voltarem a ser crianças comuns em Londres, mesmo tendo memórias de toda uma vida adulta como reis em Nárnia, Peter, Edmund, Susan e Lucy são chamados de volta, mas as coisas estão muito diferentes: Nárnia foi conquistada por humanos e as criaturas mágicas foram caçadas até a quase extinção. Os sobreviventes juntam-se às quatro crianças para reconduzir ao poder o jovem príncipe Caspian, caçado por seu tio Miraz, que deseja o trono para si e seu recém-nascido filho.
Pode estar "na moda" fazer segundos capítulos mais "sombrios", mas não é apenas o tom mais sério que segura este filme: a história é muito bem contada e todo o elenco a interpreta muito bem. Existem reviravoltas estratégicas arrepiantes e alguns sacrifícios extremos são feitos em nome da liberdade. Não se via uma gota de sangue no primeiro episódio, mas neste ele jorra com certa generosidade - nada capaz de chocar criancinhas, claro, mas o toque realista é bem-vindo. Os efeitos especiais criam momentos arrebatadores, que fazem desta continuação uma ótima pedida para uma tarde de ócio.
DVD: Ensaio Sobre a Cegueira
Acometida por uma súbita e inexplicável epidemia de cegueira, a humanidade se perde em conflito e degradação, retornando aos instintos básicos que os aproximam da total descivilização: em nome da segurança, da saciedade da fome e da sede, do impulso sexual e do desejo de poder, as pessoas apelam à segregação, ao roubo, ao estupro e ao assassinato. O único resquício de sanidade e organização é a mulher de um médico (Julianne Moore), que se empenha de corpo e alma em amenizar o sofrimento e os problemas originados pela cegueira - e que, estranhamente, não é afetada.
Parece um cenário horrível, né? E nós, que nem temos a desculpa da doença?
O Mestre Chang já comentou o filme antes. Clique aqui para ler.
1958-2009
Eu sempre vou lembrar onde estava e o que estava fazendo em 25 de Junho de 2009. Adeus, Michael.
Quando meus alunos reclamam que não têm criatividade para escrever uma redação em inglês, dou o seguinte conselho: não se preocupe em ser criativo, mas verdadeiro; fale de você, das suas experiências e opiniões. Em suma, coloque-se no papel.
Foi o que James Robinson fez ao escrever as excelentes histórias desta primeira (rezemos para que não seja única) coletânea de Starman publicada pela Panini. Robinson fez de Jack Knight (o relutante novo Starman, obrigado a assumir o legado do pai quando seu irmão mais velho é assassinado) uma espécie de alter-ego. Como seu criador, Jack é colecionador de todo tipo de quinquilharia antiga, de álbuns de figurinhas a gravatas, de pôsteres a taças de cristal. O universo do Starman é cheio de referências culturais de décadas passadas, fenômenos pop de pequena e grande magnitudes, coisas que Robinson certamente curtiu muito.
Muito provavelmente, é essa pessoalidade que existe nas histórias que as torna tão agradáveis de ler. Robinson esmerou-se na criação de um universo extremamente compacto, com poucos personagens fixos, todos muito bem delineados. São histórias que brincam com a famosa falta de noção dos super-heróis, com marmanjos vestindo malhas colantes e acessórios ridículos, coisa que Jack, para desgosto de seu pai (o primeiro Starman da Sociedade da Justiça), abomina. O que ele quer mais é ficar atrás do balcão do seu brechó, sem ser incomodado. Acontece que os problemas o procuram e, se não enfrentá-los, a opção que Jack tem é morrer.
Falando nisso, este volume tem dois momentos emblemáticos sobre a morte nos quadrinhos. No primeiro, a única vez em que Jack cede à sede de sangue que acomete os justiceiros mais afoitos, ele sente-se mal e logo trata de jurar: nunca mais - e isso num gibi lançado em plena era Image (1994), com seus ogros homicidas. Na outra, Jack encontra seu irmão morto - e quebra o pau com ele. Ressurreição? Sonho? A história não explica, mas basta uma olhada mais atenta pra sacar a verdade.
Robinson foi feliz, também, na escolha de Tony Harris para os desenhos. Harris dá as histórias de Starman um jeitão noir, com excelente uso de sombras. Na sétima história, ele cede a vez para Teddy H. Kristiansen, ainda mais adequado ao clima de terror da trama com o vilão Sombra. Nos extras, notas feitas pelo próprio Robinson enriquecem e muito a experiência de desfrutar deste belo álbum.
Sem dúvida, um dos melhores volumes de luxo publicados pela Panini. Perdê-lo teria sido imperdoável. Não bastasse a qualidade das histórias, o Submarino fez promoção que baixou o extorsivo perço inicial de R$ 62,00 para meros R$ 19,90, com frete grátis. Mais um belo item para a Estante Encantada, a preço de banana.
Cantai como filhos do Senhor! Jesus, me chicoteia! São os bonitinhos do gospel!
Os intervalos comerciais da Rede Globo foram tomados de assalto por uma tendência que não é exatamente novidade. Por meio de sua gravadora, a famigerada Som Livre, a líder de audiência descobriu o que sua concorrente mais incômoda (a Record) já sabia há muito tempo: sex God sells.
Há o comercial do cd Milagres, da bonita de rosto e voz Adriana; o do cd Deus do Impossível, da certinha (e chatinha) Aline Barros; e o atual xodozinho das "tias" católicas, o bonitão Padre Fábio de Melo, com seu cd/dvd Eu e o Tempo, todos devidamente consagrados como campeões de vendas e de pirataria - mas, espere, não é só isso! Tem algo mais unindo esses três lançamentos, além do óbvio e ululante tema das canções: a beleza física de seus intérpretes.
Antes que você abra seu saco de clichês para me dizer que a beleza deles é um "presente de Deus" ou qualquer coisa assim, eu tenho uma verdade muito mais palpável pra apresentar: a Globo não dá ponto sem nó. Daí, que não bastava (re)entrar no mercado gospel contando apenas com o apelo das canções, ou investir no agora já passadinho Padre Marcelo Rossi. Era preciso contar com gente bonita, dotada de uma necessária dose de sex appeal, capaz de elevar as vendas em igual proporção à da libido dos fiéis. Claro, tudo devidamente embalado numa aura de pureza e boas intenções.
Verdade seja dita, nenhum dos três é exatamente novo no mundo gospel e já possuem um séquito de fãs. Você não há de duvidar, porém, que eles foram escolhidos a dedo pela Som Livre, né? Adriana tem aquele jeito imponente de top model que amadureceu. Aline Barros, uma pinta de mocinha tão pura que deve peidar cheiroso, mas, assim como outra da mesma espécie, a Sandy, tem quem goste. Fábio de Melo, o galã da hora, tem aquele nariz curiosamente fálico, emoldurado por um ar de homem que não avança o sinal (isto é, se mocinha - ou tia - não pedir).
Adriana canta bem. Aline canta bem. O repertório pode ser tedioso e repetitivo, mas aí já são outros quinhentos. Fábio de Melo, porém, não é cantor. Os comerciais já dão pista do seu alcance vocal limitado, de modo que não fiquei surpreso quando ele se apresentou no Domingão do Faustão umas semanas atrás, semitonando horrivelmente em vários momentos. É óbvio que os discos dele não existiriam sem um ProTools (software de edição de voz) ou equivalente. O playback deve comer solto em seus shows. Ou isso, ou a massa católica está pouco se lixando pra parte musical e só quer mesmo louvar ao Senhor.
O repertório do padre inclui, de forma bastante despropositada, clássicos do cancioneiro popular que destoam completamente do restante do repertório, pelo simples fato de não serem canções gospel, apenas citando palavras ou expressões caras ao catolicismo, como "Romaria" (Renato Teixeira) e "Pai" (Fábio Jr.), essa última falando de um pai extremamente mundano e falho, nada adequado para comparações com o Criador. Até "Apenas Mais Uma de Amor", de Lulu Santos, entrou no baile, sabe-se lá sob qual pretexto.
Desde os tempos do Padre Marcelo Rossi, pulando ao lado de dançarinas e "celebridades" seminuas no programa do Gugu, que se discute se é correto que a Igreja Católica lance mão desse tipo de artifício, se isso é evangelização ou circo pop - mas, ora bolas, se outras podem e o fazem sem pudor, por que não? O que eu gostaria é que eles assumissem de uma vez o caráter de "braço armado", de tática de guerrilha, que esses cantores representam, ao invés de ficar negando que a beleza é o grande trunfo do padre do nariz erótico. Afinal, cantores bem melhores existem aos montes, inclusive no universo religioso, e nem por isso eles estão ganhando preciosos segundos no horário nobre.
- Até que enfim, caminha no Congresso um projeto de lei que acaba com a absurda criminalização da homossexualidade nas Forças Armadas, que deve estender-se às polícias. Num momento em que o Brasil começa a figurar como uma moderna potência mundial, é realmente vergonhoso que uma lei tão medieval esteja em vigor, desrespeitando direitos civis e desperdiçando potencial humano. Homens e mulheres gays sempre existiram, sempre existirão e não é fazendo de conta que eles não já integram determinadas corporações, ou aplicando-lhes descabidas punições ao descobrir-se sua condição sexual, que essas corporações serão melhores.
- Comprei a versão motherfucker de Watchmen lançada pela Panini, basicamente por três motivos: 1) minha edição de 1999 da Editora Abril (ótima, diga-se) já se encontra abalada pelas sucessivas mudanças de endereço; 2) ela parecia ter ficado linda, impressão que se confirmou quando pude finalmente tê-la em mãos; 3) um desconto de R$ 40 sobre o preço de capa (R$ 120) pode ser bastante persuasivo, ainda mais com parcelamento em três vezes. Foi pelo site da Saraiva, mas Americanas e Submarino têm condições semelhantes.
- Eu tinha resolvido não dizer uma linha sobre o monte de estrume que é o filme do Wolverine, mas me peguei percebendo que ele tem um tom que já começava a delinear-se em X-Men - O Confronto Final: uma maçaroca de boas tramas condensadas em situações forçadas e clichês constrangedores. Ao que parece, Homem de Ferro foi uma exceção no caminho que a Marvel resolveu adotar, pontuado por ação descerebrada e brigas inexplicáveis - e detesto dizer que eu já previa o desastre, mas é verdade. Vejamos o que os próximos filmes reservam.
- Voltando um pouco ao assunto do post anterior, ontem estava pensando em como mudei minha impressão sobre "Vertigo", do U2, desde seu lançamento, há cinco anos. Na época, admito, achei uma porcaria sem tamanho, era como o U2 estivesse virando o Green Day. Veio a visita ao Brasil em 2006 e minha percepção foi mudando aos poucos. Hoje, se tem uma música que me deixa feliz, que me anima o dia, é "Vertigo". Sabe o que eu percebo nela? Que é um dos poucos momentos em que o U2, uma banda tão afeita a hinos pomposos e causas nobres, permite-se ser apenas uma banda de rock, e das boas. Guitarra, baixo e bateria estão infernalmente rock 'n' roll, e Bono a interpreta com o tesão de um garoto de 19 anos. Não é pouca coisa. Se rolar mesmo show ano que vem, espero estar perto do palco para contar "uno, dos, tres, catorce!"
Em 1989, um CD custava de cinco a dez vezes mais que um LP. Naquele Brasil que ainda iria realizar sua primeira eleição direta, ainda bem fechado política e economicamente, não havia internet ou globalização de qualquer espécie; importar um LP ou CD demandava uma boa grana ou boa vontade por parte daquele parente/amigo em viagem ao exterior. A Bizz tinha pouco mais de três anos de existência e publicava, orgulhosa, notícias de dois ou três meses antes. O U2 enfrentava sua primeira crise criativa, a dance music tomava as paradas de assalto e as bandas de rock nacional atingiam o pico de sua popularidade, do qual despencariam vertiginosamente com a chegada dos sertanejos.
Foi o ano da polêmica edição da Veja em que Cazuza admitia ter AIDS, que também vitimaria o ator Lauro Corona. O ano das mortes de Raul Seixas, de Luiz Gonzaga e do pintor Salvador Dalí. O ano da primeira disputa de Lula pela presidência do país, que perderia para o famigerado Fernando Collor de Mello, o alagoano que tinha aquilo roxo. O ano da queda do Muro de Berlim.
Como não poderia deixar de ser, foi, também, o ano de discos memoráveis, alguns dos quais prometiam marcar a ferro seu nome na História. De boas intenções, porém, o inferno está lotado e os sebos, cheios dos empoeirados esforços de gente que tentava ganhar ou manter seu lugar ao efêmero sol das paradas. Duas décadas depois, porém, quantos destes discos realmente resistem a uma audição?
Como sempre acontece nestes casos, a lista é limitadíssima e minha opinião, nada profissional. Trata-se da opinião de um fã que curtiu os discos na época de seu lançamento e compara as sensações de então com as de agora. Concordando ou discordando, não deixe de comentar!
CAZUZA - Burguesia
- Você sempre me amou? Mesmo agonizando com a AIDS, Cazuza colhia os frutos de respeito e sucesso obtidos com Ideologia e ampliados com o Ao Vivo, de onde constava a fundamental "O Tempo Não Para". Cercado de expectativa, Burguesia foi uma decepção. Gravado a toque de caixa, o pretensioso disco duplo tinha os piores timbres possíveis e a voz de Cazuza reduzida a um fiapo. Não ajudavam as letras medíocres, em especial na total falta de sutileza de "Cobaias de Deus" e "Filho Único". Mesmo assim, foi possível me afeiçoar a algumas canções, como "Azul e Amarelo", "Mulher Sem Razão" e "Como Já Dizia Djavan".
- Vinte anos não são vinte dias! Infelizmente, o tempo foi inclemente com Burguesia e seus defeitos foram apenas ressaltados com a evolução das produções musicais no Brasil. As canções ruins soam ainda piores e as melhores agora soam apenas razoáveis. As semitonadas de Cazuza já não merecem o perdão que sua condição evocava à época. Melhor teria sido encerrar a carreira antes e aguardar a morte com um pouco mais de dignidade.
GUNS N' ROSES - Lies/Live Like A Suicide
- Você sempre me amou? Em 1989, o Guns era a única banda capaz de ameaçar o U2 no trono de Maior do Mundo. Culpa desse disco, meio acústico de estúdio e meio elétrico ao vivo, que continha "Patience" e sua indefectível introdução assobiada. Sim, eu a assobiei muito por aí, mas também curtia o humor negro de "Used To Love Her", a versão desplugada de "You're Crazy" e a cover de "Mama Kin", do Aerosmith. Sim, tocou até encher o saco, mas admito: naquela época, o GN'R era MUITO legal!
- Vinte anos não são vinte dias! O recurso do assobio, repetido na politicamente incorreta "One in a Million", já não tem o frescor da novidade e acaba irritando. Depois de anos de abuso do formato acústico, o "lado" elétrico do disco, com seu hard rock veloz e enérgetico, soa bem mais legal que aquele que o fez famoso. Dá uma certa saudade e uma baita vontade de porrar as cabeças de Axl e Slash uma na outra, até eles se entenderem.
MARISA MONTE - MM
- Você sempre me amou? "Diva" era o adjetivo mais modesto aplicado a Marisa Monte em sua estréia, apadrinhada e "jabazada" por Nelson Motta. De fato, ela impressionava, transitando com desenvoltura entre Titãs, Mutantes, Carmen Miranda e standards norte-americanos. Uma criatura híbrida, pop demais para a MPB e suave demais para o rock. Mesmo assim, era uma novidade gostosa e MM rodou muito no meu som. Para o bem e para o mal, estava inaugurada a era das cantoras "ecléticas" (ainda sem o ranço GLS).
- Vinte anos não são vinte dias! Ainda bem que Marisa Monte evoluiu barbaridades como cantora e compositora. Este primeiro registro soa hoje quase insuportável em seus excessos, como o timbre rosnado nas introduções de "Comida" e "Negro Gato" e transgressões tolas, como encaixar drogas na letra de "Chocolate", de Tim Maia. Já a versão para "I Heard It Through The Grapevine", de Marvin Gaye (que não constava do LP), incomoda pelo inglês macarrônico.
SOUL II SOUL - Club Classics Vol. One
- Você sempre me amou? Jazzie B e sua trupe eram quase uma unanimidade entre a crítica: descolados, chiques, talentosos. O compasso manemolente de "Keep On Movin'" foi logo apelidado de "batida Soul II Soul", de tanto que foi copiado - e podem não ter sido eles a inventá-lo, mas sem dúvida o popularizaram. Uma de minhas primeiras paixões na dance music, o Soul II Soul era mesmo o que parecia: descolado, chique, talentoso. Bastava um trinado de Caron Wheeler pra os pelos de minha nuca se eriçarem.
- Vinte anos não são vinte dias! A dance music ganhou batidas bem mais encorpadas e velozes. Infelizmente, a estréia do Soul II Soul não envelheceu muito bem, e o que antes era um saudavelmente nostálgico resgate do soul com roupagem modernosa, hoje soa bastante datado. Não ficou ruim, mas é preciso um bocado de esforço pra entrar no clima.
THE STONE ROSES - The Stone Roses
- Você sempre me amou? Desde aqueles tempos (ou antes), a imprensa britânica já tinha a mania de declarar o rock "morto" e apresentar um novo grupo de "salvadores" do gênero e, com a mesma facilidade com que enchia a bola dos mais ingênuos em uma semana, detonava-os sem pena na seguinte. The Stone Roses vinha embalado pela fama obtida no underground londrino, pela neopsicodelia que tomava a cidade e pelo nascimento da cultura shoegazer (shoegazers eram uma espécie de emos cheios de anfetaminas). Sim, eles justificavam o culto, com este disco impecável, que casava melodias à la Beatles com algumas batidas dançantes.
- Vinte anos não são vinte dias! Sim, continua ótimo! Há quem considere este disco o verdadeiro marco do nascimento do britpop, cinco anos antes do Oasis. A banda, como sabemos, não se criou, lançando um segundo disco (Second Coming) que confundiu e desagradou aos fãs. A carreira solo de Ian Brown tampouco deu em qualquer coisa digna de nota. Tudo bem, este disco é bom o bastante para redimi-los até o fim da existência!
Dizem que o segundo disco é complicado e traumático, que a maioria das bandas se perdem em suas próprias pretensões e acabam soando broxadas, quando queriam apenas mostrar-se maduras. Pelo menos, é o que diz uma daquelas famosas regras não-escritas do pop.
Regras, como a gente sabe, foram feitas para serem quebradas - e que delícia é a gente estar vivo para ver uma banda mandar as previsões às favas, de forma tão espetacular. Noisettes é um genial trio inglês que fez um primeiro disco (What's The Time, Mr. Wolf, 2007) de punk pop rápido e gritado, uma coisa à la The BellRays, ainda mais por também contar com a presença de uma vocalista negra de voz soul, a também baixista Shingai Shoniwa.
E não, eu não conhecia o Noisettes até semana passada! Tive a felicidade de ser iniciado por este segundo disco, Wild Young Hearts, uma daquelas bolachinhas (será que hoje, em tempos digitais, teremos que chamar discos de "pastinhas"?) absurdamente prazerosas, que fazem a gente passar o dia inteiro com um sorriso no rosto.
Variado sem perder a unidade, Wild Young Hearts tem de tudo. Com a fúria punk do primeiro disco domesticada para só atacar quando necessário, a banda faz um arrastão de felicidade e melodias impecáveis, que começa com a delicadeza acústica de "Sometimes", passeia pelo funk do single "Don't Upset The Rhythm", prossegue com a nostálgica e assobiável faixa-título (guitarras rosnam no refrão) e caminha para o fim com a explosão soul de "Never Forget You" e o embalo technopop de "Saturday Night".
Há muito mais a curtir nas 11 impecáveis faixas, todas executadas com garra, graça, frescor e talento. Não me lembro de outro CD recente ter descido tão redondinho. O que mais a gente pode querer de uma banda tão jovem e promissora? Ou Noisettes estoura mundo afora, ou não existe justiça neste mundo.
Ficou curioso? Clique aqui e, chegando lá, clique de novo.
Ridi Pagliaccio! O duplo ataque do Coringa na Panini
Com estes lançamentos, a Panini atingiu uma espécie de ápice do deslumbramento com as edições em capa dura. Coringa e A Piada Mortal, apesar do preço camarada (R$ 24,90 e R$ 19,90, respectivamente), podiam perfeitamente prescindir de tão supérfluo luxo e receber edições mais modestas, ainda mais quando se considera seu reduzido número de páginas: A Piada Mortal, por exemplo, é tão fina que parece uma capa vazia!
Sim, eu gosto das edições em capa dura, mas acredito que apenas edições ou reedições realmente especiais deveriam ganhar tal acabamento. Os meus critérios e os seus, claro, são altamente subjetivos e discutíveis, mas uma coisa é ter capa dura para fenômenos artísticos e de mercado, como Watchmen ou Os Supremos Vol. 1, clássicos desde o berço e perigosamente volumosos para uma edição brochura. Outra, bem diferente, é embalar obras tão rarefeitas em alto luxo, quando nem lá fora elas são vendidas assim.
Que ninguém ponha em dúvida, porém, os méritos de qualquer das duas histórias em questão. A Piada Mortal, de Alan Moore, é um dos vértices do triângulo de tramas imortais que consolidaram a imagem moderna do Batman e o clima soturno de suas aventuras, ao lado de Ano Um e O Cavaleiro das Trevas, ambas de Frank Miller (por falar nessa última, quando a Panini vai dignar-se a reeditá-la em capa dura? O mercado de livrarias não tem que ser constantemente reabastecido? Será possível que, tendo em vista que a primeira edição esgotou-se, eles achem que ela pode encalhar?).
É deveras interessante saber, no posfácio escrito pelo desenhista e novo colorista Brian Bolland, que a origem bolada para o Coringa (tida como definitiva) e o aleijamento de Barbara Gordon ocorreram a Alan Moore meio que como uma “vingança” motivada pressão de escrever a história. Não é de admirar que agora, nos EUA, quando ele é desafeto declarado da DC e não perde uma oportunidade de pichar as adaptações para cinema de suas obras, a editora esteja pensando em desfazer, sabe Deus como, o martírio de Barbara Gordon, que acabou por transformá-la numa personagem muito mais útil e interessante, a Oráculo.
As cores de Bolland primam pela discrição, ao contrário da psicodelia do trabalho original de John Higgins, particularmente na sequência da casa de espelhos. Com suas cinquenta e poucas páginas, A Piada Mortal teve que ser vitaminada com o conto “Sujeito Inocente” (extraído do Batman Preto & Branco Vol. 1 e colorizado) e uma reedição da Batman 1 original, de 1940, primeira aparição do Coringa. Mesmo assim, é tão fina e leve dentro de sua capa dura, que a gente a segura nas mãos com medo de “quebrar”. Pode ficar bonito na estante, mas precisar, não precisava.
Coringa sofre um pouco menos de “anorexia celulósica”, mas agradaria mais em capa cartão e com preço abaixo dos R$ 20. Na trama escrita por Brian Azzarello (100 Balas) e desenhada por Lee Bermejo (Lex Luthor: Homem de Aço), o Coringa deixa o Asilo Arkham e, escoltado por um pé-de-chinelo chamado Jonny Frost, parte para recuperar o comando do crime em Gotham. O bom da história é focar mais no aspecto gangster do Coringa do que ficar remoendo clichês sobre sua loucura – aliás, que loucura? Assim como no filme que consagrou Heath Ledger, o Coringa de Coringa (sic) deixa claro desde o princípio que louco ele não é. Sobra, então, a maldade que ele mostra de sobra, em vinganças nada delicadas sobre seus desafetos.
O passeio pelo submundo de Gotham contempla ainda o Crocodilo, o Pinguim e o Duas-Caras. Existe ainda, é lógico, o Batman, aquele Batman sacana que Azzarello apresentou em Cidade Castigada, publicada em Batman 23 e 24 (2004), que adora falar pouco e esmurrar muito. Ao contrário da lucidez com que geralmente é representado por outros autores, aqui ele se permite dar uma bela sacaneada no bandido, na virtual única vez em que abre a boca. Variações na arte-final (dividida entre Bermejo e Mick Gray) saltam aos olhos, mas não chegam a incomodar. Difícil dizer se Coringa alcançará o mesmo status de clássico de A Piada Mortal, mas apesar do enfoque diferente sobre a personalidade do infernal nêmesis do Batman, é companhia mais do que digna.
Luz verde no fim do túnel Será que só Geoff Johns pensa no futuro?
Há seis meses, anunciei aqui minha decisão de limitar meu consumo de revistas mensais da DC/Panini a quatro títulos: Batman, Superman, Liga da Justiça e Lanterna Verde. Na ocasião, me disse o parceiro Paranoid Android, via MSN, que com tal decisão eu seria um nerd mais feliz. Resignado, concordei; mas, por dentro, eu não entendia muito bem como era possível ser feliz deixando de lado as histórias dos personagens que eu tanto amava, por mais que sua recente qualidade estivesse oscilando (quase sempre para baixo).
Pois bem, aqui estamos. São quatro meses sem comprar Novos Titãs ou Superman & Batman (sim, eu confesso, fraquejei durante dois meses) e, vejam só, me sinto um nerd realmente mais feliz. Não apenas porque conseguir colocar um critério de qualidade acima do impulso de colecionador, mas, também, por ter escolhido preservar o material que, hoje, melhor compensa o investimento. Enquanto isso, sucessivas edições das malfadadas maxisséries Contagem Regressiva e Prelúdio Para Crise Final chegam às bancas, sem que eu sinta o menor comichão de comprá-las (e pelo que observo ao ler as edições emprestadas de um aluno, cada vez mais, me convenço de que fiz a coisa certa!).
Também ando lendo emprestadas algumas coisas da Marvel, com positivo destaque para Thor, Capitão América, Thunderbolts e Quarteto Fantástico, fase Millar. Os Novos Vingadores do bajulado Brian Bendis é lixo puro, apenas repetindo seus cacoetes: o linguajar coloquial (por vezes, chulo) e os diálogos em estilo ping-pong que, um dia, já foram interessantes. De modo geral, nada está tãããão superior à DC assim, mas a Marvel domina de 70% a 80% do Top 10 americano todo mês. "Por que será, Batman?", você pergunta, aflito.
A saber:
1) Mesmo empregando um exército de incompetentes, a Marvel também concentra um maior número de bons criadores. Isso, provavelmente, deve-se ao fato de não possuir por trás de si um megaconglomerado de entretenimento, como é o caso da Warner em relação à DC. Em termos práticos, isso significa menos caciques apitando e um pouco mais de liberdade criativa.
2) A Marvel tem um histórico recente de grandes sucessos no cinema, com pelo menos três franquias de sucesso, enquanto a DC só teve dois filmes bem-sucedidos, ligados a um mesmo personagem, o Batman. Talvez um bom filme não forme toda uma geração de novos leitores, mas mesmo que apenas dois fiquem interessados, hão de recomendar a leitura a outros dois, que recomendarão a outros dois, e assim sucessivamente. É um trabalho de formiga, mas certamente tem dado frutos. Enquanto a Marvel deitava rolava nas telas, a DC cancelava todas as suas possíveis adaptações.
3) Mesmo que se possa criticar a Marvel pela mais que duvidosa qualidade (?) de coisas como Miss Marvel, Exilados e Pantera Negra, não se pode deixar de admitir: o seu universo encontra-se num invejável estado de coesão, com tudo convergindo espetacularmente para a Invasão Secreta e, posteriormente, ao Dark Reign. A DC já conseguiu isso antes, não faz muito tempo, naquele um ano ou dois que conduziram até a Crise Infinita. Hoje, porém, às portas da Crise Final, cada escritor atira para um lado e o leitor que se salve, se puder.
Este último talvez seja o sintoma mais nefasto da propalada decadência da DC: a falta de um plano de longo prazo (ou da divulgação deste) para resgatar e preservar o interesse dos leitores. Hoje, na DC, tudo parece muito transitório, descartável e mediano, exceção feita às bissextas passagens de Brad Meltzer pela casa, à alucinógena egotrip de Grant Morrison e aos excitantes one-shots de Paul Dini com o Batman; e ao paciente e meticuloso trabalho do mais competente e versátil escritor nos quadros da editora, Geoff Johns, com o Lanterna Verde e Superman. Embora também esteja fazendo bonito em séries menores, como Sociedade da Justiça e Gladiador Dourado, Johns tem sido particularmente feliz na construção de uma mitologia consistente para o Super e, mais ainda, para o Lanterna.
No caso do Homem de Aço, cuja revista sobreviveu, por anos, mais do apelo inextinguível de seu personagem do que de boas histórias, a tarefa de reerguê-lo das cinzas foi inicialmente dividida com os também inspirados Greg Rucka e Mark Waid. Johns, porém, logo se destacaria dos demais, alcançando picos de adrenalina em Último Filho. Agora, atrela de modo definitivo o Superman à Legião dos Super-Heróis clássica, desde a Saga do Relâmpago (em parceria com Brad Meltzer) até a vindoura Legião de Três Mundos, em que deve resolver a quizumba da coexistência da "Malhação dos Super-Heróis" que habitava a extinta Os Melhores do Mundo, com a versão mais icônica (que parece ir além da evidente diferença etária).
Com o Lanterna Verde, porém, Johns se superou, pegando um personagem (Hal Jordan) desgastado por anos de desmandos, que iam desde sua transformação em vilão com nome de remédio (Parallax) a hospedeiro do Espectro, e o devolveu ao seu lugar de direito: o de principal Lanterna Verde do setor 2814. Olha que estou falando isso depois de ter me divertido bastante com as aventuras de Kyle Rayner, sozinho ou com a Liga da Justiça. Kyle não apenas preservou, como reacendeu toda a mitologia esmeralda e, felizmente, não precisou ser morto em uma aventura mequetrefe para abrir caminho ao seu antecessor. Johns, porém, jamais teve ou deixou dúvidas: o astro da revista é Jordan. Os lanternas ao seu redor são apenas coadjuvantes.
Daí que Hal Jordan foi ressuscitado em Lanterna Verde: Renascimento, uma história que dava explicações convincentes para a loucura sangunária de Hal e até para o surgimento de seus precoces cabelos brancos. De quebra, Johns ainda acabou com as patacoadas envolvendo outro favorito dos leitores, Guy Gardner, também maltratado pela "genialidade" de escritores que o fizeram descobrir-se um híbrido de alienígena que transformava partes do corpo em armas. Tudo estava de volta ao seu lugar: Hal Jordan estava vivo e portando seu anel, Guy Gardner voltava a ser um lanterna e o também ressuscitado Sinestro provava-se um grande motherfucker.
O que fazer depois? Apontar para o futuro, lógico. O plano de restaurar a glória de Hal Jordan não poderia limitar-se a tirá-lo da tumba. Era preciso um grande desafio para que o herói, ainda sofrendo desconfiança de alguns colegas na Terra e na Tropa, pudesse provar novamente seu valor. O desafio veio na forma da Tropa Sinestro, comandada pelo próprio, reunindo as criaturas mais capazes de instilar grande medo e ostentando a luz amarela de Parallax. Para vencê-los, os Guardiões tiveram que fazer uma perigosa concessão aos seus soldados: permitir força letal. As primeiras consequências dessa nova liberdade de ação já se fazem sentir em Lanterna Verde 8, da Panini.
Assim, quando vemos Geoff Johns pacientemente preparando o terreno para uma guerra entre todos os espectros da luz, cada cor representando um aspecto do caráter humano, podemos colecionar algumas certezas: ele ama esses personagens e sabe muito bem aonde os está levando. Johns escreve hoje com olhos no futuro. Melhor ainda, está erguendo seu castelo em bases pra lá de sólidas (a Guerra dos Anéis foi uma profecia imaginada, em uns poucos quadrinhos, por Alan Moore nos anos 80, numa história protagonizada por Abin Sur - consulte o seu Grandes Clássicos DC 9), acrescentando a elas seu toque pessoal. Isso é muito mais do que vêm fazendo 95% do staff da DC Comics atualmente. Há que se elogiar, porém, a decisão da editora de manter o nosso Ivan Reis no comando do lápis, ao menos nos momentos mais importantes. Sem ele, a Guerra dos Anéis não teria tido o mesmo impacto.
Por tudo isso, quando os sites de entretenimento aparecem com um promissor boato de que Geoff Johns e Jim Lee formariam em breve a nova equipe criativa da Liga da Justiça (hoje entregue a aventuras simpáticas, porém pouco impactantes, de Dwayne McDuffie e outros), vejo motivos para comemorar e dizer: yes, please! Johns não é nenhuma unanimidade (vide seu fiasco com os Novos Titãs e a Crise Infinita), mas não há ninguém na DC com maior poder de consertar cronologias estragadas (vide seus triunfos com o Gavião Negro e a Sociedade da Justiça) e reviver de maneira decente personagens mortos, tanto que a DC confiou-lhe a tarefa de, após a Crise Final, trazer de volta Barry Allen, o Flash que morreu na Crise de 1985, ocupante de um dos poucos túmulos não violados da editora - isto é, até hoje.
Talvez seja muito cedo para dizer isso, mas... in Johns we trust.
Em 2000, chegou às lojas um disco simplesmente impecável, em forma, conteúdo e propósitos. Escuta Aqui mostrava que, aos 15 anos de carreira, o Biquini Cavadão (desde sempre, uma banda da "segunda divisão" do rock nacional) estava pronto para o século 21. Com produção gringa e uma música de trabalho (a faixa-título) que emulava o melhor de New Order e The Cure (quem não ouviu ecos de "Friday I'm In Love" que atire a primeira pedra), o Biquini Cavadão versão ano 2000 fazia pop como gente grande e inteligente.
Infelizmente, Escuta Aqui veio ao mundo no pior dos momentos: o auge da era saudosista das gravadoras, quando 90% do que os artistas nacionais lançavam no mercado eram coletânea, ao vivo e acústico. Como ousavam estes rapazes aparecer com um disco de material novo, interessante e mega-ambicioso em sua simplicidade? Ah, isso não podia ficar impune! Geladeira neles!
Daí que, já no ano seguinte, sabe Deus se por decisão própria ou imposta pela gravadora, o Biquini lançou 80, com suas versões para o repertório alheio daquela década, incluindo uma releitura de sua própria "Múmias", que reaproveitava e dava novo destaque ao vocal de Renato Russo na versão original, de 1985. Por fim, dois Ao Vivo intercalados por apenas UM trabalho inédito (o honesto, porém mediano, Só Quem Sonha Acordado Vê O Sol Nascer, de 2007). Por sobrevivência ou por gosto, o Biquini Cavadão capitulou à onda revivalista e assumiu de vez uma identidade de banda "de baile".
Toda essa introdução, por mais que pareça, não era para falar do Biquini Cavadão, mas sim para levantar uma questão que ronda 10 entre 10 debates sobre música: o que é antigo é sempre melhor? Não se produz mais música original, apenas emulações do passado? Admito que muitos dos meus artistas favoritos são hoje veteranos em torno dos 50 anos, mas será que os jovens de hoje não sabem mesmo fazer música interessante?
Sabem, sim. É lógico que, quando você ouve a uma FM ou assiste à MTV e vê artistas milimetricamente fabricados para atingir um público-alvo e totalmente desprovidos de qualquer resquício de alma verdadeira (citar nomes aqui vai, inevitavelmente, parecer pessoal e provocativo demais), alguém com o mínimo de conhecimento sobre música vai sentir-se ultrajado e descrente - e esta não é uma declaração elitista ou exclusivista: existe, sim, música boa de verdade e música ruim de verdade, que pairam muito acima ou rastejam muito abaixo de questões como o gosto pessoal.
Ao contrário do que se diz, não é a música pop que é implacável com os "não-jovens", mas sim, o mercado. Tratar uma redução nas vendas de artistas com 20 ou 30 anos de carreira como declínio é ignorar o curso natural das coisas: os jovens buscam uma identificação com outros jovens; os já não tão jovens assim seguem fiéis, mas quase sempre assumem compromissos que nem sempre deixam espaço (ou dinheiro) para seguir com a adoração fanática à sua banda favorita. Exceções como Madonna e U2, ainda relevantes e recusando-se a viver de glórias passadas, apenas confirmam essa regra.
E aos outros, o que acontece? Ora, eles seguem produzindo, não raramente melhor do que em seus anos dourados. Fazem turnês mais modestas e vendem um décimo do que vendiam antes, ou menos, mas estão lá, dando vazão ao talento e à força criativa que impele os artistas verdadeiros para a frente.
Exemplos? O Screaming Trees é um nome recorrente quando se fala dos anos do grunge, mas quantos sabem que Mark Lanegan lançou dois fabulosos discos de country music, junto a Isobel Campbell, ex-vocalista do Belle & Sebastian? Elvis Costello (que você talvez só conheça da onipresente "She", que nem é dele), nome forte dos anos 70, lança belos discos quase todo ano. Robert Plant, do lendário Led Zeppelin, ganhou o Grammy de melhor álbum este ano, ora pombas!
Aqui no Brasil não é muito diferente, mas parece haver uma consiração midiática que mantém a velha guarda vivendo eternamente dos seus bons tempos, dando lugar a nulidades com delineador nos olhos. Isso não impediu, porém, que aparecesse uma Mallu Magalhães, que, por mais chata que seja (e, meu deus, como ela é chata!), merece aplausos por destacar-se da manada emo-skatista e iniciar sua carreira em bases mais saudáveis, por menos espontâneas que suas referências sejam.
De mais a mais, cobrar originalidade no rock é insensato, às raias do inútil, uma vez que o gênero já nasceu apoiado sobre os ombros de coisas já existentes: o blues, o jazz e o country. O erro dos fãs mais jovens ao desprezar os artistas mais velhos é o mesmo que cometem os velhos em suas críticas aos jovens: esquecer que o tempo é fluido e que o presente não é um momento estanque, desligado do passado. Enquanto uns poderiam ter mais interesse pelo que se fez antes (às vezes, bem melhor) de seus pululantes ídolos e assim desenvolver um ponto de vista mais crítico, outros poderiam entender que existe respeitosa reverência ao passado, e não mera vampirização, no trabalho de jovens músicos.
A meu ver, todas as bases possíveis já foram lançadas e tudo que vem agora vai apenas reciclar, de forma mais ou menos interessante, o que já foi feito - o que não diminui em nada o mérito dos jovens, pois compor uma linha melódica decente não é trabalho para qualquer zé-mané e não há facilidade tecnológica que substitua o talento musical genuíno. Você pode reclamar, alegando que os "cantores" (cantores?) de funk estão aí pra me desmentir, mas lembre-se que um baile funk cumpre propósitos sociais (uns louváveis, outros deploráveis) que vão além da música (música?).
Relaxe, então, meu caro coroa, do seu apego por sua coleção dos Beatles, do Iron Maiden, ou seja lá quem for, e abra seus olhos e ouvidos para os bons nomes que surgem todo ano e que, graças a essa coisa bendita chamada internet, estão ao alcance de seus ouvidos de uma maneira que era impensável há 20 anos ou mais. Você, também, jovem, que acha que qualquer um com mais de 25 anos não faz outra coisa além de pagar mico, deixe de ser imbecil e saiba que só consultando o passado é que se consegue alguma cultura musical.
E assim, todos foram (e serão) felizes para sempre.
Olá, amigos. Mando mais um postal do exílio, em situação contrária à última vez: se antes eu escrevi para relaxar do estudo, hoje escrevo antes de me atracar com uma extensa produção textual e algum estudo online. Espero que vocês estejam com saúde, dinheiro e se comportando mal. Abraços a todos!
Watchmen - O Filme
Talvez a coisa mais considerada "infilmável" desde que o mesmo era dito de O Senhor dos Anéis, Watchmen chegou aos cinemas cercado de expectativa e receio, por parte dos fãs, e da costumeira postura não-vi-e-não-gostei, por parte de seu autor, Alan Moore. O que eu vi na tela justificou a espera com alguns méritos, mas... dava pra fazer melhor? Claro, era só fazer um filme com cinco ou seis horas de duração - ou, como sugeriu o Luwig ao MSN, fazer de Watchmen uma série televisiva.
Tudo que era indispensável à trama ficou lá: a Guerra Fria no auge como pano-de-fundo, as relações do Comediante com os outros personagens, a lucidez obsessiva e maniqueísta de Rorschach, a frieza distante do Dr. Manhattan, o plano para apressar o fim do mundo. Mesmo que não seja o Watchmen ideal, acredito que Zack Snyder tenha entregue o melhor Watchmen possível.
O que deu certo: as caracterizações impecáveis de Rorschach e Comediante (eles eram, enfim, os melhores personagens também na HQ); a recriação literal e minuciosa dos lugares e eventos mais emblemáticos; os diálogos e a trilha sonora; o não-alívio do que a história tinha de mais violento e sexual (incluindo aí o onipresente bilau azul do Dr. Manhattan); e a solução encontrada para alterar o final imaginado por Alan Moore, bem mais digerível do que um monstrengo telepata surgido do nada.
O que está errado: o Ozymandias nada impressionante e o pouco tempo em cena da "onça" mutante Bubastis; a agilidade dos aposentados Coruja e Espectral, como se tivessem abandonado as rondas dias antes, e não anos; a imposição estilística da câmera lenta de Snyder; a falta de maiores elementos de humanidade - tudo ficou muito "super" e Watchmen, na verdade, é sobre heróis sem poder, sobre gente comum, sobre você e sobre mim.
Quando finalmente pude assisti-lo, apenas uma semana depois de ter entrado em cartaz, o filme já estava relegado à menor sala do Shopping Iguatemi, em Salvador, sério indício de que o público comum não ficou lá muito satisfeito. Apesar do bom ritmo do filme, um cara do meu lado dava suspiros impacientes, mas o povo prendia a respiração pra valer nos momentos mais tensos.
Tenho a opinião de que era cedo para Watchmen ver a luz da tela grande, afinal, com as boas (e ainda vivas) lembranças de Batman e Homem de Ferro, o gênero vive uma "era de ouro" e o público não podia mesmo ficar muito contente com um filme que destrói, de forma tão incisiva, nossas ilusões sobre super-heróis. Curiosidade saciada, resta agora saber se Watchmen, o filme, sobreviverá aos anos com a mesma força que Watchmen, a HQ. Nota 8,0.
U2 - No Line On The Horizon (y otras cositas más)
Demorou pouco a minha resistência a No Line On The Horizon - mas, ora pombas, é do U2 que estamos falando! Depois de All That You Can't Leave Behind (2000) e How To Dismantle An Atomic Bomb (2004), discos medianos cometidos na ânsia de recuperar os fãs assustados com as (benditas) heresias eletrônicas de Zooropa (1993) e Pop (1997), o U2 sumiu por quase cinco anos, mas, na volta, conseguiu trazer um punhado de canções poderosas e criativas. NLOTH é um disco que se revela aos poucos, com a criativa guitarra de The Edge crescendo a cada audição, sobre a galopante cozinha de Adam e Larry. Melhor ainda, Bono voltou a ser aquele vocalista capaz de causar pontadas no coração do ouvinte. "Get On Your Boots", o primeiro single, pode ser uma (deliciosa) bobagem, mas tudo que vem antes e depois dela é fruto de inspiração e emoção genuínas. Já temos o melhor do ano? Bem provável.
Mais música procês!
Art Brut, Art Brut vs. Satan - Eu só os conhecia de nome, mas não dá para não gostar de uma banda que produz versos como "DC Comics and chocolate milkshake / some things will always be great / even though I'm 28". Decenauta é mesmo gente fina! O som é punk pop de primeira, cheio de sotaque londrino.
Phoenix, Wolfgang Amadeus Phoenix - Após três anos, está de volta uma das bandas mais legais do mundo - e ela vem da França! O Phoenix prova que música pop não precisa ser burra pra ser acessível. Baixe o single "1901".
Ximena Sariñana, Mediocre - Uma jovem atriz mexicana lança-se como cantora, sob as bênçãos da lenda kitsch Miguel Bosé - e seu disco só é medíocre no nome. Outra bela surpresa em minha busca pelo bom pop latino.
Ryan Adams, Cardinology - Exceto pelo Whiskeytown, sempre ignorei esse cara - também, quem mandou ter quase o mesmo nome de um mala incorrigível (o Bryan)? Um belo disco, pra você lembrar que música country não é só aquela coisa chata que sonoriza rodeios.
Tenacious D, The Pick Of Destiny - Trilha do filme homônimo de 2006, uma sequência de piadas chulas e roteiro zero, mas com trilha sonora vibrante - procure no YouTube os vídeos das impagáveis "Kickapoo", "Classico" e "Beelzeboss". Jack Black e Kyle Gass são rock na veia!
Marvin Gaye, What's Going On - É clássico e é Marvin Gaye. Ponto.
Eu sei que anunciei meu sumiço há apenas 15 dias, mas também anunciei que apareceria de vez em quando, certo? Pois bem. Ontem tive uma pequena overdose de estudo (com direito a provas virtuais) e decidi usar o domingo para dar um polimento na minha nerdice.
CINEMA
- Vai ter a audácia de dizer que eu não merecia?
O grande lance dos últimos dias foi a entrega do Oscar. Como esperado e como era justo, Heath Ledger ganhou como ator coadjuvante e Wall-E como melhor animação. O que talvez nem todo mundo esperasse era a chuva de prêmios para Quem Quer Ser Um Milionário?, agraciado com oito estatuetas. Não vi o filme ainda, mas não devem faltar méritos, visto que é fruto da mente de um cineasta original como é Danny Boyle. O que eu continuo não aceitando é que Batman - O Cavaleiro das Trevas, o filme mais assistido e elogiado de 2008, não tenha concorrido aos prêmios de melhor filme, roteiro e direção.
QUADRINHOS
A Pixel foi pras cucuias e levou com ela minha recém-iniciada coleção de Sandman. Ediouro, vá pro inferno! Nada mais a dizer.
Já a Panini colocou no mercado sérias ameaças ao meu magro porquinho: a edição recolorizada de A Piada Mortal (Alan Moore e Brian Bolland), a inédita e promissora Coringa (Brian Azzarello e Lee Bermejo) e a edição definitiva de Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons), aproveitando o lançamento do filme. São mais de 400 páginas, com o astronômico preço bruto de R$ 120,00. Nas lojas virtuais, porém, pode-se achá-lo por R$ 95,00. Para quem não faz questão de capa dura e papel especial, o clássico ganha uma versão "de pobre", com capa cartonada e papel comum, em dois volumes, a R$ 28,50 cada.
Nos fronts mensais, as coisas vão bem, obrigado. Superman continua em ótima fase, agora com uma excelente história ambientada no século 31, com a Legião dos Super-Heróis, cortesia de Geoff Johns e Gary Frank. Em Batman, A Ressurreição de Ra's Al Ghul pode não ser o cúmulo da originalidade, mas é agitada e divertida. Em Lanterva Verde, acabou A Guerra dos Anéis, mas ela foi apenas a primeira parte de uma longa saga que culminará na Noite Mais Densa, em 2010. Nos próximos meses, seremos apresentados a energias de outras cores, regidas por emoções como a fúria e a avareza. Por fim, em Liga da Justiça, a equipe dona da revista tem perdido em impacto para a Sociedade da Justiça, não apenas pelas excelentes capas de Alex Ross, mas pela superioridade das tramas de Geoff Johns sobre as de Dwayne McDuffie. O Flash de Mark Waid continua acelerado (perdão pelo trocadilho infame) e até a Mulher-Maravilha de Gail Simone, pasmem, merece uma leitura mais atenta.
MÚSICA
Baixar mp3 tem sido meu lazer nerd mais constante - e, cara, quanta coisa boa eu tenho escutado!
Não nego que meu interesse por Bruce Springsteen foi aguçado pela indicação de "The Wrestler" ao Oscar. Acontece que Working On A Dream é um grande álbum em sua totalidade. Imagine como seria misturar um Bob Dylan que sabe cantar com um Roy Orbison menos triste. Assim é o Bruce, modelo 2009.
Existe na América Latina uma variedade imensa de boa música pop sendo feita, mas aqui no Brasil, a gente se limita à chatice da Shakira e à farofa do Maná (e é sempre "Vivir Sin Aire", embora eles tenham músicas bem melhores). Com quase 20 anos de carreira, o uruguaio Jorge Drexler só se tornou meu conhecido em 2008, quando baixei Eco (2005), um desses discos que a gente deixa rolando da primeira à última faixa sem reclamar. É nele que está a vencedora do Oscar "Al Otro Lado Del Río", de Diários de Motocicleta.
Dois ícones recentes da música eletrônica também caíram nas minhas graças. O duo francês Air é mais climático e melódico, enquanto o Daft Punk é mais de pista, radical e funky, como um novo Kraftwerk (não tome a baba de FM "One More Time" como base para suas impressões).
Em fevereiro, meu dinossauro favorito, Morrissey, voltou à carga com um disco de impressionante vigor, Years Of Refusal, em que abandona de vez o papo de "viado virgem" e canta as alegrias (e, claro, as tristezas) da conjunção carnal, devidamente amparado por rockões musculosos como "Something Is Squeezing My Skull" e por suas típicas (e lindas) baladonas, como "I'm Throwing My Arms Around Paris". Para mim, um agradável bônus foi ter as faixas inéditas da coletânea de 2008 (as ótimas "That's How People Grow Up" e "All You Need Is Me") incluídas no repertório. A caneta de Morrissey continua afiada e sua voz, mais cristalina a cada dia.
Por fim, após quase cinco anos, o U2 lançou disco novo. As guitarras ensandecidas do primeiro single, "Get On Your Boots", não dão o tom exato de No Line On The Horizon, que faz lembrar a fase mais experimental do grupo, com canções que não soariam deslocadas em Achtung Baby ou Zooropa. Não gruda de primeira no ouvido e, certamente, não vai revolucionar o rock porra nenhuma, como prometeu Bono meses atrás, mas talvez não se deva cobrar revoluções de bandas com 30 anos de carreira. A única coisa que espero do U2, a essa altura, é poder assistir a um show da nova turnê, que deve começar em breve.
Raspando o tacho: It's Not Me, It's You, de Lily Allen, é divertido, mas a falta de variação vocal irrita um pouco. Tonight, do Franz Ferdinand é menos certeiro que os anteriores, mas ainda é legal. The Von Bondies, apadrinhados por Jack White, são uma grata surpresa, no disco Love, Hate, And Then There's You. Fechando a tampa, para rir um pouco, recomendo Saliva-me (2005), do artista multimídia baiano Zéu Britto (aquele que sempre cantava na finada série Sexo Frágil), recheado de hard rocks com títulos maravilhosos, como "Vou Queimar Seu Peito Com Isqueiro" (ai!).
CARNAVAL
Este ano, tive um carnaval light. A maior parte do feriado foi passada em casa, descansando mesmo. Dediquei apenas um dia à orla de Salvador, durante o qual comprovei que não existe jeito melhor de ver o espetáculo do que em um camarote, de onde se pode ver os artistas e a empolgação da multidão de um ângulo favorável, seguro e emocionante; que a guerra de cervejas pode fazer Ivete Sangalo (empregada da Nova Schin) literalmente dar as costas ao camarote Skol e não parar seu trio na frente dele, coisa que todo mundo fazia; que Cláudia Leitte é uma rival que a incomoda de verdade; que Daniela Mercury oferece um espetáculo de primeira grandeza, culturalmente rico, multifacetado e geralmente gratuito; que o Asa de Águia agita o povo de uma maneira absurda, impressionante mesmo; e que álcool em doses elevadas infecciona minha garganta. Shit... :-(
Outro dia foi passado em uma pequena cidade do interior, chamada Maragojipe, que tem um carnaval à moda antiga, lembrando bastante os mascarados de Veneza (fotos acima) . A trilha sonora não é o pula-pula do axé, nem a baixaria do pagode baiano, mas antigas marchinhas e hinos de carnaval compostos por especialistas como Moraes Moreira e Armandinho. Tudo muito bonito e alegre, com jovens e idosos dividindo o mesmo espaço, dando a esperança de que nem tudo na vida é campeonato de beijos e abadás custando o olho da cara.
Foi, enfim, um carnaval magro, discreto e comedido. Nada parecido com 2007, quando tomei todas e saí no bloco das Muquiranas, no que deveria ser uma fantasia de Mulher-Gato. Para você que não acreditava que o Batman pudesse usar os trajes de sua ardilosa inimiga/amante, eis uma imagem que nao deixa dúvidas...
Durante estes últimos dias, eu estive pensando em coisas que poderiam render um post interessante. Falta de assunto não era: tivemos o início brochado do governo Obama, agressões físicas e morais a brasileiros no exterior, desastre ambiental na Austrália, a Ediouro dando uma sonora banana aos estridentes paga-paus da Pixel, lançamentos musicais importantes (Morrissey, Lily Allen, U2, etc.) e o Oscar chegando, com Heath Ledger nas cabeças.
Acontece que simplesmente não me vinha a inspiração, aquela incontinência de idéias que me faz sentar à frente do meu laptop e discorrer sobre o que for. Nada. De repente, mal eu começava as famosas "mal traçadas linhas" e já estava impaciente e descontente com o pouco que saía. De repente, me toquei de que havia algo de estranho no ar, uma espécie de "climão", me deixando ansioso - e eu não sabia para que, nem por que.
Hoje, porém, chego do primeiro dia letivo na universidade, ainda atônito com o volume de trabalho que me aguarda. É tempo de estágio, de muita leitura, de provas constantes e de preparação para a monografia. Somo a tudo isso meu trabalho como professor e chego à conclusão de que, para dar conta de meus lados profissional e universitário, sem "matar" minha faceta nerd (aquela que adora ler comics todo dia, postar neste blog e visitar outros tantos, entrar no Orkut e falar no MSN), precisaria de um dia com, pelo menos, 36 horas.
Como é impossível, venho comunicar a todos os visitantes, habituais ou eventuais, que, ao invés de ficar tentando arrumar justificativas para meu sumiço ou espremendo os miolos pela obrigação de postar, estou anunciando uma espécie de "aposentadoria temporária" do Catapop, até o fim do ano, ou até que eu aprenda a conciliar responsabilidades e lazer nerd. Neste período, espero que o Mestre Chang consiga manter atualizações regulares que justifiquem suas visitas, mas, como sei que a vida dele também anda bastante tumultuada, não chega a ser uma promessa.
Lembrem-se: o blog não acaba! É apenas um período de seca anunciada. Eventualmente, pode ser que eu apareça com o fruto de algum surto de inspiração e disponibilidade.
Aqui no Catapop, estou sempre falando de música estrangeira, principalmente de rock. Hoje, quero fazer um pouco diferente, aproveitando o humor emepebístico que me acometeu de uns dias pra cá.
"Irmã de Caetano Veloso". Chega a ser engraçado que o nome Maria Bethânia evoque sempre, atrelado a si, esta espécie de subtítulo; trata-se de um epíteto reducionista e injusto, como se sua carreira não pudesse existir sem o apoio do seu irmão mais polêmico.
Polêmica, aliás, é coisa em que Bethânia nunca esteve interessada. Desde o começo de sua carreira, fez questão de dissociar sua imagem de de qualquer onda ou "movimento" da moda: não se via tropicalista, nem cantora de bossa, nem de fossa. Maria Bethânia gosta de cantar o que bem lhe der na telha. Se num momento ela canta bossa, no seguinte já está cantando samba-de-roda. Se num disco presta tributo a Roberto Carlos, no outro convida a cubana Omara Portuondo para ilustrar as nem tão óbvias conexões entre Bahia e Cuba.
Carreira por carreira, Bethânia não deve nada a seu irmão: pode-se considerá-lo mais ousado, mais disposto a riscos, mas ela certamente tem melhores critérios. Caetano busca o novo, o complexo e o chocante. Bethânia prefere o básico, o simples e o tocante. Assumida como mera intérprete, está sempre revelando novos e bons compositores. A estes, reúne um punhado de clássicos, poemas e canções de domínio popular.
Me perdoe, você, que implica com o nariz, o cabelo ou a feiúra conjunta de Bethânia, mas um fato inegável está lhe escapando: ela é uma das maiores cantoras deste país, senão a maior. Se os motivos apresentados nos parágrafos anteriores não bastam, existe a voz. Melhor dizendo: A VOZ. Forte, cristalina e inigualavelmente emotiva, pairando soberana sobre um piano, um violão, um set de cordas, sopros, percussão, ou tudo isso junto. Como poucas, ela sabe dosar a emoção para cantar sobre o amor de forma delicada, quase angelical, ou arrebatadora, quase como uma doença de que não se quer curar.
Não raramente, comete discos praticamente perfeitos, como os temáticos Pirata (sobre a água dos rios) e Mar de Sophia (sobre a água do mar), ambos de 2006. Sendo humana, porém, dá suas pisadas na bola, como gravar a purgante "É O Amor", de Zezé di Camargo & Luciano. Quando um artista de renome grava um canção tida como brega, os críticos costumam dizer que ele deu "dignidade" à música. Algumas, entretanto, estão além de qualquer salvação. Foi o caso. Ela não precisava disso.
Tudo bem, porque Bethânia não liga para o que eu penso. Na verdade, não liga para o que ninguém pensa. Ela faz parte daquele grupo de artistas que dizem sucessivos "não" aos programas de auditório e não fazem a mínima questão de falar com a imprensa. Atitude antipática, talvez, mas que seguramente contribui para evitar o esvaziamento de seu trabalho, como acontece toda vez que Caetano se mete a falar sobre qualquer coisa que dispense sua opinião, ou quando esse jovens artistas deslumbrados de hoje se deixam seduzir pelo lado Caras do showbiz. Bethânia só existe no disco (ou mp3...), que é o lugar de quem faz música.
Como seu irmão, Bethânia, já há alguns anos, vem intercalando trabalhos de estúdio com registros ao vivo. Reclame da repetição do repertório, se quiser, já que alguns de seus clássicos acabam sendo inevitáveis. Só não esqueça de perceber como cada show traz uma emoção nova, um clima diferente, e que, justamente por não ter um rostinho bonitinho ou um belo par de pernas que desviem a atenção do principal (a música), Bethânia merece reverência. Salve, Rainha!
PS: a quantidade de vezes que citei Caetano, para poder falar de Bethânia, parece dar razão à tendenciosa ideia do início do texto. Na verdade, justamente por recusar-se a fazer tudo igual a seu irmão, é que a vale citá-lo, para evidenciar as diferenças entre ambos, já que, de semelhança, basta a "fina estampa" (he he!).