Gaby Amarantos é uma das artistas mais "quentes" do país, hoje em dia. Está na abertura da novela das sete da Rede Globo e em quase todos os programas de auditório e talk shows. Seu primeiro disco, Treme, tem sido bastante elogiado em revistas formadoras de opinião, como a Billboard, a Rolling Stone e a Bravo!.
Esse negócio de toda a crítica estar falando muito bem de uma artista claramente popular e sem qualquer pretensão de vanguarda me faz levantar as orelhas em suspeita. Porque, em geral, a crítica costuma se derreter para artistas independentes que fazem fusão disso com aquilo, que parecem incapazes de produzir um disco simples de forró, rock ou samba. É sempre um rótulo novo e inócuo, tentando dar algum estofo a uma música sem personalidade e totalmente esquecível. Ou isso, ou a ascendência ilustre.
Como muita gente já deve ter percebido, o brega com sotaque norte-nordestino é o novo dodoizinho da vez lá no sul e até Marisa Monte embarcou nessa, em seu último disco. É a coisa mais cool do momento e falar mal é "preconceito". Daí que, mesmo com toda a má vontade que carrego contra esse negócio de "artista do povão" (outro epíteto que não significa nada, geralmente ostentado por figuras que, na falta de talento, querem vencer pela "humildade", como se isso qualificasse alguém ao estrelato), eu assisti a Gaby no clipe de "Xirley" e pensei: taí, gostei da moça, tem atitude e bom humor.
A música tem um balanço legal e dosa bem os blips e tóins que caracterizam o tecnobrega paraense. A letra não é nada genial, se repete quatro vezes nos parcos três minutos da canção, mas, sei lá, é um troço que conquista. Além do mais, ao contrário de outra "diva" paraense, Joelma (ARGH!¹º), Gaby tem uma voz agradável e não posa de romântica sofredora. Ela prefere sacanear o "Ex Mai Love", como na letra do tema de abertura de Cheias de Charme.
E lá fui eu, disposto a baixar Treme e escutá-lo inteiro, para ter uma opinião formada sobre melhores bases. O disco tem produção de Carlos Eduardo Miranda (o ogro do Ídolos no SBT). Botei o bichinho nos fones e pulei "Xirley", a faixa de abertura, pra ir direto às novidades.
Pontos positivos: uns baixões guturais e a bela sequência das faixas 3 a 5, com a música da novela, a suingada "Merengue Latino" e a sensual "Pimenta com Sal", com auxílio de Fernanda Takai (do Pato Fu), em que a história de duas moças "causando" na praia sugere que elas seriam mais que amigas. Além delas, "Chuva" e "Eira" trazem interessantes jogos de palavras e Gaby conseguiu a proeza de tornar palatável um baladão meloso de Zezé di Camargo & Luciano ("Coração Está em Pedaços").
Pontos negativos: de modo geral, as melodias são bastante simples e de apelo fácil (não é uma crítica) e as letras de Gaby são espertas, sem que isso seja sinônimo de piranhagem. Sobra, então, o instrumental, e aí é que mora o problema. Eu acho muito difícil de aguentar, durante um CD inteiro, esses beats ultra-acelerados do gênero e seus timbres fuleiros de teclado. Todo esse fon-fon-ron-fon-fon das famosas "festas de aparelhagem" me irrita seriamente, depois de um tempo.
Se "passar com a média" era o objetivo, Gaby está aprovada. Continua sendo um tipo de música distante das minhas preferências e não vai ficar no meu HD ou no meu celular, mas, pelo menos, não vai me matar de tédio ou revolta, se tocar num bar ou numa festa em que eu esteja. Nestes tempos, em que as coisas parecem nunca deixar de piorar, já é um alento que seu disco tenha reduzido a marcha ladeira abaixo em que nossa música popular se encontra.
























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